Deus

Wednesday, August 23, 2006

A Moral Humana

Toda a moral que não se baseie na liberdade individual não pode ser considerada como tal.

Não existe outra moral que não seja a humana, por estar inscrita em todos os corações, acima de partidos, agrupamentos ou qualquer tipo de sectarismos, pois, como escreveu Voltaire, “a moral vem de Deus, como a luz. As nossas superstições são apenas trevas”, pois “há somente uma moral, assim como há somente uma geometria” e “todos os dogmas são diferentes”, mas “a moral é a mesma em todos os homens que usam a razão”.

Defender o livre pensar e uma nova cultura – fortificação imortal habitada por espíritos pensantes – implica defender o estudo, a arte – que é uma forma de eternidade – e a elevação espiritual, que permitirá discernir o que é verdadeiro do que é falso - a grande mentira que permeia toda a cultura atual apoiada num inominável e imoral ateísmo ou materialismo, travestido de fé e espiritualidade e baseada em preconceitos que imobilizam a inteligência e a sensibilidade humanas -.

Defender a liberdade de pensar significa opor-se às imposições travestidas de misericórdia e bondade e defender a moral que vem de Deus, e não da superstição que submete e acorrenta as inteligências.

Ter fé em sim mesmo e não no que se desconhece para ser livre e viver a verdadeira moral que deve se basear no respeito que se deve a si mesmo e aos demais – como muito bem assinalou o pensador e escritor González Pecotche – e não se submeter a uma “moral de escravos” como ponderou Torga e Nietsche, pois o ser humano que se respeita não deve curvar-se perante qualquer poder, pois nenhuma obra humana poderá ser realizada fora da liberdade.

Deus não pode ser reduzido, estreitado, encapsulado numa criação humana. Se existe algum pecado, ele pode ser chamado de ignorância sobre si mesmo e sobre o Deus que se desconhece.

Quando Nietsche disse que Deus estava morto, pode ter querido significar que se deveria procurar e conhecer o Deus verdadeiro, o do amor, e não o da culpa e do sofrimento, o da justiça, e não o do castigo que oprime e aterroriza.

Não há maior cárcere que a ignorância, porque Deus é liberdade e conhecimento, redenção e aprendizado, alegria e evolução.

O engenhoso sofisma de Protágoras que diz ser o homem a medida de todas as coisas nos leva a uma única moral que vem Deus e está indelevelmente inscrita em todos os corações.

Nagib Anderáos Neto
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Thursday, August 03, 2006

Deus e a Liberdade

Se o homem é a medida de todas as coisas, ele não deve curvar-se diante de qualquer poder por trazer dentro de si a liberdade como algo a ser conquistado e realizado. A liberdade deve estar incluída em todo projeto humano. É muito difícil dissociar-se a idéia de liberdade do conceito que se tenha sobre Deus; e este conceito deve evoluir no decorrer do tempo.

Quando Nietzche afirmou que Deus estava morto, significaria essa morte que Deus não existe? Seria essa morte uma salvação para o homem?

O Deus criado pelo homem criou o homem e expulsou-o do paraíso. Seria esse o Deus morto? O segredo desse Deus e dos tiranos não seria o fato de saber que os homens podem ser livres e não o sabem?

Dizer que Deus é imenso é pouco. Negá-Lo seria negar a existência do próprio ser humano e cerrar as portas da mundividência que o espírito humano traz consigo. Por outro lado, aceitar versões de deuses criados pela imaginação hipertrofiada, tiranos vingativos que não querem súditos que pensem por própria conta, com liberdade, é a negação absoluta de Sua existência e da capacidade do ser humano de evoluir que é o objetivo central para o qual tudo foi criado, inclusive o homem.

É possível que na nova era que se inicia, uma síntese contemporânea da cosmovisão do Ocidente e do Oriente venha substituir as gastas fórmulas aplicadas até aqui na busca e na compreensão de Deus e da Liberdade.

Pretender ressuscitar velhas e gastas fórmulas, tal como o modernismo sem conseqüência tem pretendido, é um retrocesso inadmissível para o homem de hoje que busca mudanças e a liberdade em todos os seus fundamentos.

A liberdade de pensar é a mais sagrada e fundamental de todas as liberdades; pensar, para o espírito humano, é tão importante quanto respirar para o organismo físico. E pensar é, antes de tudo, criar com liberdade o que possa ser útil para o próprio ser pensante e para os semelhantes. A inteligência obstruída pela carga de preconceitos seculares vê-se impossibilitada de movimentar-se neste criativo exercício mental que é pensar, como o corpo físico endurecido e despreparado para maiores esforços e movimentos por causa da inércia e do sedentarismo. E estes conceitos mumificados que se transformaram em preconceitos constituem o pesado lastro, a gordura mental que impede que a inteligência se movimente. E essa liberdade sagrada não está regida por nenhum código ou lei humana, nenhuma escritura, por ser regida por leis superiores e universais e estar aberta a qualquer criatura, a qualquer ser humano que anele firmemente liberar-se dos barrotes da ignorância.

Deus quer que o ser humano use a sua inteligência e seu coração para aproximar-se da Grande Verdade que se confunde com o seu aperfeiçoamento pessoal e o de toda a espécie humana. Deus não é o pai vingativo que atemoriza os seus filhos e se regozija com as guerras fratricidas que os insensatos dizem fazer em Seu nome. Lutar pela liberdade própria e humana procurando respirar as Verdades imanentes da Natureza e as que brotam da própria inteligência e do próprio coração é a sensata e eloqüente postura do aprendiz que, apesar de reconhecer suas limitações, não se conforma com a imobilidade e a submissão.


Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

Deus Não Quer Escravos

Na Hora dos Assassinos, Henry Miller nos traz a revolta de Rimbaud na juventude:
“Tudo o que nos ensinam é falso!”.
E o autor americano acrescenta:
“Tinha a razão, toda a razão. Mas a nossa missão na Terra consiste em combater os falsos ensinamentos em nome das manifestações de verdade que trazemos dentro de nós”.
Sim, a verdade está dentro de nós, basta senti-la. Deveremos buscar o verdadeiro e abominar a falsidade, a mentira, a hipocrisia. E a maior de todas as mentiras é julgarmo-nos incapazes de chegar à verdade por nossa própria conta. Somos pequenos deuses muito capazes, se soubermos respeitar e ser amigos dos nossos irmãos, com os quais temos muito que aprender. A grande inteligência humana é esta capacidade de conviver harmonicamente com os outros seres humanos.
Deus nos criou para sermos felizes e inteligentes. Para aprender que a maior de todas as felicidades é saber, conhecer e ser livre. Deus não quer escravos, quer homens livres, inteligentes e pensantes. E a maior das escravidões é a mental, onde o ser humano se vê encarcerado nos barrotes da ignorância. Esta é a pior das prisões, o desconhecimento da própria realidade, das causas dos erros e desacertos. Quem se desconhece é um presidiário em sua casa, em sua mente, embora perambule em aparente liberdade pelas ruas cercado por temores e incertezas.
A verdadeira torre de Babel está aí, diante de nós. Até os que falam o mesmo idioma não se entendem, querendo significar que deve haver um novo idioma a ser cultivado para que o ser humano caminhe pacificamente. Tudo indica que a linguagem de Deus que está inscrita na Natureza ainda não foi decifrada pelo pequeno homem pretensioso, vaidoso e político.
Homens divididos são facilmente dominados, escravizados por aqueles que em tudo vêem a possibilidade de satisfações materiais, cegos por inconfessáveis ânsias de domínio, poder e riqueza.
Pensar é respirar. O Universo respira por mais que queiramos abafar e aquecer nosso pequeno planeta com gás carbônico. A Terra é um ínfimo nesta Criação imensa. Nossa inteligência não, ela pode ser maior, um verso, um poema, toda uma literatura. Nossa alma humana, nossa mente, pode transcender este hiato decaído e projetar-se num futuro ilimitado, verso grandioso onde os homens sentirão a alegria de viver e de ser humanos.
Talvez pudéssemos fazer um reparo ao angustiado protesto do jovem poeta francês dizendo que quase tudo o que nos ensinam é falso e que deveríamos procurar separar, dentro e fora de nós, o que é falso do que é verdadeiro, o que é verdade do que é mercadoria travestida de verdade, e ter neste objetivo uma missão, como muito bem observou o escritor americano.

Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

Tuesday, August 01, 2006

A Sobrevivência do Homem-Deus

Whitman (o poeta da meia-noite, do sono, da morte e das estrelas, que se autoconsiderava uma espécie de deus libertador americano, contrapondo-se às tradições, que para ele eram coisas mortas, fria argamassa e tijolo), aquele que não necessitava de nenhum ídolo que não fosse ele próprio, é considerado o centro do cânone americano.
“Não posso conceber nenhum ser mais maravilhoso que o homem”, dizia. E ele nos impressiona, sobretudo, ao lançar um grito eterno e metafísico para o futuro, um sonoro e alto brado à procura de ouvidos seculares que pudessem ser os próprios, preparados ouvidos para o murmúrio poético, metafísico e ardente:
“Cheio de vida, hoje, compacto e visível,
Eu, com quarenta anos da idade no ano oitenta e três dos Estados Unidos.
A ti, dentro de um século ou de muitos séculos
A ti, que não nasceste, te busco.
Estás lendo-me. Agora o invisível sou eu,
Agora és tu, compacto, visível, o que intui os versos e o que me busca,
Pensando o feliz que seria se eu pudesse ser teu companheiro.
Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não tenhas demasiada segurança de que eu não esteja contigo).”

Extraído do Livro Guardados Que Vivem
Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

Deus e os Detalhes

Uma velha citação diz que Deus está nos detalhes. Uma outra, que a poesia é feita de detalhes e pode ser vida. E ainda, que o poeta, como os cegos, é capaz de enxergar na escuridão.
Esta última, como as demais, leva-nos a Borges, com seus espelhos e labirintos. E sem nenhum esforço, vêm-nos à mente alguns poucos e misteriosos versos do poeta argentino:
Às vezes nas tardes uma cara
Nos mira desde o fundo de um espelho;
A arte deve ser como este espelho
Que nos revela a nossa própria cara
Conheci um outro menino que se assustava com os espelhos. Porque aquela cara que o mirava desde o fundo do espelho não era a cara dele. E se perguntava: “que cara é esta? Eu não sou esta cara!”.
A vida haveria de revelá-la.
Então é certo: a poesia é feita de detalhes e pode ser vida. E cada cara traz um enigma, um mistério, uma história, uma herança. Cada uma com uma fisionomia própria, nunca iguais, mesmo as dos gêmeos mais parecidos, como as impressões digitais, um mistério particular, não a cara, mas o que haveria por detrás dela, a fisionomia particular, a expressão metafísica, a verdadeira e desconhecida face.
Detalhe, espelho, Deus, cara. Cada palavra um símbolo-mágico, metáfora-viva. Homem, alma, espírito. Cada qual haverá de decifrá-la.
E sem nenhum esforço da memória, vem-nos à mente Emily Dickynson, novamente, a murmurar:
A palavra morre
Quando é dita,
alguém diz.
Eu digo que ela começa
A viver
Naquele dia
As palavras não são metáforas-mortas; são metáforas-vivas que podem e devem evoluir através dos tempos;
principalmente as que representam certos conceitos de extrema importância para o ser humano: vida, mente, existência, Deus, felicidade, alma, espírito, inteligência, sensibilidade.
A palavra “pedra”, por exemplo, refere-se a algo físico que conhecemos e pode nos vir à mente no exato momento de ouvi-la.
Quando ouvimos Drummond dizer: “havia uma pedra no caminho”, a sutileza metafísica é gritante; já não é uma pedra física, é uma pedra mental, um obstáculo a ser removido, um problema a ser resolvido.
A palavra Deus, por exemplo, dependendo de quem a ouça, reporta a uma imagem que vem do conceito que se tenha; pode ser um senhor com uma enorme barba e que vive no céu, ou o próprio Universo com tudo o que nele existe, ou um animal sagrado, o sorriso de uma criança, o gesto generoso de quem nos ajuda, ou uma inteligência maior de onde todas as demais provêm, ou absolutamente nada. A palavra refere-se ao conceito e pode, sim, ser uma metáfora-morta se não evolui com o tempo transformando-se num preconceito.
As palavras, expressões físicas dos pensamentos, são pequenos detalhes com os quais se poderá chegar a Deus ou mergulhar na escuridão.

Extraído do livro Guardados Que Vivem
Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br